
O consumismo neoliberal gera uma proeza: a pessoa passa à condição de objeto, e o objeto — a mercadoria — ocupa a condição de sujeito. O consumo já não édeterminado pela necessidade. Depende, sobretudo, do sonho do consumidor de alcançar o status do produto.
Isso mesmo: a mercadoria possui grife, status, agrega valor a quem a porta. Ao obtê-la, o consumidor se deixa possuir por ela. O valor que ela contém, criado pela mídia publicitária e pela moda, emana e impregna o consumidor. Em suma, o sujeito passa a ser tratado como objeto. Duplo objeto: por se sujeitar à mercadoria e por ser rechaçado por seus pares. Porque no sistema consumista só é aceito quem transita no universo do luxo e do supérfluo.
Esse processo de desumanização estimula a obsolescência das mercadorias. Agora se produz para atender, não a uma necessidade, mas a um sonho. O produto adquirido hoje — carro, computador, iPad — estará obsoleto amanhã. Essa inversão do sujeito humano tornado objeto e do objeto transformado em ‘humano’ ou mesmo ‘divino’. Isso se dissemina através da publicidade, que não faz distinção de classes. O apelo é igual para todos.
A diferença é que o rico tem fácil acesso aos novos ícones do consumismo. O pobre absorve os ícones e reconhece o quanto ele é socialmente descartado e descartável por não se revestir de objetos que imprimem valor às pessoas. Daí a frustração e a revolta.
A frustração pode ser compensada pela inveja. A revolta leva ao crime — “Não sou como eles, mas terei, a ferro e fogo, o que eles têm”.
Haverá limites à obsolescência? Tudo indica que não. A indústria há tempos aprendeu que o consumidor é irracional, não se move por princípios, e sim por efeitos. É a emoção que o faz aproximar do balcão.
Frei Betto
Fonte: http://odia.ig.com.br/portal/opiniao (Domingo, 21/10/12)
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